Cressida Cowell e a criatividade viking

Outro dia vi uma hashtag rolando no Twitter, algo como #IndiqueUmaAutora, não lembro, mas sei que tinha também a intenção de valorizar o trabalho das autoras no mercado literário. Nunca tinha parado pra pensar se quem escreve um livro que gosto é homem ou melhor.

Na verdade, às vezes, nem lembro o nome do autor! Porque compro pela capa, pela orelha, tento sair das prateleiras que ficam bem à frente nas livrarias, pra tentar criar espaço para o que não estão expondo com tanto investimento. Algo novo!

Então, queria falar com vocês sobre Cressida Cowel, a criadora da série de livros Como Treinar O Seu Dragão. Eu li depois de assistir o primeiro filme, lá em 2010/2011. Então não se encaixa na categoria “dos achados ocultos” que falei acima – falei mesmo pra incentivar que você faça o mesmo e se deixe surpreender. E como é algo muito conhecido, acho que podemos pular a sinopse tradicional, embora os livros sejam diferentes dos filmes.

Cressida Cowell Como Treinar O Seu Dragao 03
Foto: ZIMBIO

Por que ela é importante?

Para mim, foi uma revelação. Literatura infantil, mas para todas as idades. Nada de ilustrações rebuscadas ou romantizadas, pelo contrário: era como se ela tivesse encontrado os escritos feitos pelas mãos de um viking pré-adolescente (que é como ela conta a história).

Os personagens com nomes que não eram bem nomes próprios, tipo Soluço, Melequento, Bocão Bonarroto. A brincadeira com as fontes: se alguém gritava ela escrevia AAAAAAHHH! Em caixa alta! Fontes diferentes para personagens diferentes também, quando Banguela, o dragão, fala, nós “lemos outro tipo de voz”, a voz de um dragão.

Pra mim, foi quando tudo aconteceu. Eu percebi que estava lendo uma história feita para crianças, mas ainda assim me surpreendendo. E não era a típica Jornada do Herói, Soluço, o protagonista, não teve um guia especial necessariamente nem um objeto mágico chegou de repente e ele foi “chamado para a aventura”.

Nos livros, diferentemente do filme, Banguela é o contrário do que seria ser especialmente bom. Ele é pequeno, chato, egoísta. E os vilões são caricatos e cômicos. Em busca de poder e com motivações definidas. E eles tentam, tentam e como tentam! E se intercalam retornando em cada livro com uma justifica melhor do que outra para estarem ali. Você pensa “como foi que ele se safou?”, e ela explica. E você ri disso!

Cressida Cowell Como Treinar O Seu Dragao 02

As lições de moral são claras e ao final de cada história. É quase um “Conselhos do He-Man” ao final de cada episódio, mas isso não quer dizer que estou criticando. Só pontuando.

Ah, sim. Mas por que ela é importante mesmo?

Porque, pra mim, foi quando tudo aconteceu. Dava pra escrever para todos os públicos, uma história divertida e despretensiosa, bonita, emocionante. Construir um universo aos poucos, equilibrando apelo comercial e integridade artística.

Escrever pode ser uma brincadeira! Com as palavras, com o que elas significam e passam a significar, com as diversas maneiras de apresentá-las – me refiro a serem grandes, pequenas, distorcidas. Virar uma página e ter um infográfico explicativo do próprio universo, desenhado por uma criança e reproduzido ali. Criar um manual inteiro em uma página só! E coisas desse tipo.

Cressida Cowell me mostrou que poderia ampliar o mundo das pessoas não só com o conteúdo do que eu escrevia, mas também escolhendo uma maneira diferente de apresentá-lo.

Atualmente, são 12 livros da autora, somente da série Como Treinar O Seu Dragão. Ela é jovem, nem completou 50 anos. E eu não sei o que esperar a cada edição dessa história que se lê em um dia ou dois, mas que reflete dentro da gente durante muito tempo.

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Author
Jornalista, escritor de “Tony Moon: está tudo fora de controle, cara!”. Colaborei com a Superinteressante, Vida Simples, youPIX e um monte de lugares! Fundador e Editor do Bacanudo, curioso pra caramba e um sujeito bacana!